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sexta-feira, 17 de maio de 2013

LEMBRANÇAS




Às vezes dói no meu peito
Uma saudade dos anos
Que vivi naquela casa
Daquela pequena vila.
Hoje, por ser homem feito,
Convivo com desenganos,
Com ser triste – o que me arrasa.

Não tenho vida tranquila,
Meu destino não tem jeito.
Meu futuro me aniquila,
Sou o eterno insatisfeito
Que nunca se rejubila
Porque só sinto direito
Como o coração vacila
Por desamor ou despeito.

Só quando criança brincava,
Movido pela esperança.
O tempo todo ficava
Sem notar que o tempo avança,
E enquanto o tempo avançava,
Corria, ria, pulava,
Como faz qualquer criança.

O que sucedeu a mim
Quando homem me tornei,
Foi ver quanto a vida é ruim,
Bem pior do que pensei.
Que todo sonho tem fim,
E tudo o que imaginei
Que iria ganhar, enfim,
Na verdade não ganhei.
Portanto, infeliz assim,
Mais amargo me tornei.

E então pude constatar
Tudo o que a esperança enfeixa
E então é inútil sonhar,
Fingir que não se tem queixa
Da vida a nos maltratar.
Parece à longa madeixa
Que a moça quer conservar
Mas que o destino não deixa,
por isso tem que cortar.

Me dói muito pois não pude
Envelhecer como a vila,
Que até hoje engana, ilude,
Pela aparência tranquila
Daquelas casas em fila
Que espero que nunca mude.

A lembrança que ainda tenho
Revive as vezes que passo
Pela rua, quando venho
Andando com meu cansaço.

Théo Drummond

domingo, 29 de abril de 2012

A ROSA E EU

Olho a rosa e não sei o quanto vai durar.
Trato-a como se fosse a filha preferida.
Protejo-a contra o vento e estou sempre a regar
na esperança que possa prolongar sua vida.
 
É uma rosa vermelha, nada parecida
com flores que nasceram em meu jardim linear.
Por enquanto é botão, por isso me convida,
a ficar perto dela, encantado, a cuidar.
 
Mas por mais que lhe tenha todo o amor que exista
dentro do coração, quando ela florescer,
não sei o que fazer para que ela resista.
 
E quando a minha rosa começar a perder
as pétalas rubras, e da vida desista,
eu sei que então também com ela vou morrer

Théo Drummond

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

NÃO DEVIA


Quando você, de fato, amar alguém,
Que desdenha esse amor e nem parece
Perceber esse amor que você tem,
Que como coisa ruím  a gente esquece,

E o seu amor, que tanta força tem,
Nem percebido seja e se confesse
A cada instante, neste olhar que vem,
Dizer, por tanto amor, quanto padece,

Vai morrer devagar, despercebido,
Como a folha que leva a ventania,
E some, como o amor já não querido,
 
Até que, sem querer, um belo dia,
Você vai se lembrar, arrependido,
Do amor que deixou ir e não devia.

Théo Drummond

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

PRISÃO

Ouço o cão a gemer, no meu vizinho.
É um gemido tão forte e dolorido,
Que deixa perceber que está sozinho
Pois sua companhia é o seu gemido.

O dia inteiro o caso repetido
Me faz pensar que a falta de um carinho,
Que é num gemer assim sempre pedido,
E entra na carne, qual se fosse espinho.

Sofro com ele e penso que este cão
deveria estar livre num jardim,
e não viver jamais nesta prisão.

E o dia corre e o uivo chega a mim
Ficando preso no meu coração,
Como se eu fosse o cão que uivasse assim.

Théo Drummond 
(Do livro Soneto Louco e outras poesias, pág. 53)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

SONETO LOUCO E OUTRAS POESIAS

Para os interessados numa boa leitura e solidariedade fica a dica de fim de ano:

“Soneto Louco e outras poesias”, é o 21º livro assinado pelo poeta e autor Théo Drummond.
Assim como em todos os livros de Drummond, o valor arrecadado com as vendas será doado a uma instituição de caridade.
A escolhida, desta vez, é o Instituto Nacional do Câncer.
“Soneto Louco e outras poesias” é editado pela Editora Caravansarai. (http://www.caravansarai.com.br/LivSonetoLouco.htm)
Para deixar um gostinho de quero mais:
CICLO
(página 11)
Se a folha cai,
Não quer dizer
Que vai morrer:
Um dia vai
Reaparecer.
Após levada
Por vento leve,
É misturada
À terra fina
Onde se esvai
Pois se destina
Ser húmus, breve.
Assim na vida
A gente sabe:
Nada termina,
Nada há que acabe.
Folha caída,
Futuramente,
com placidez,
vai ser semente,
e, de repente,
folha outra vez.


Théo Drummond

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ASSIM SOU EU


Eu sou sozinho e a minha companhia
Eu mesmo sou, por isso vivo triste.
Isso tu não percebes: cada dia
Me afundo mais naquilo que não viste.

Esta tristeza me acompanha e insiste
Fazer da minha vida esta agonia.
Não sei por quanto tempo ela resiste:
Olho ao redor e a casa está vazia.

Tu não percebes quanto o não estares
Sempre comigo, me magoa e é dor
Que faz doer demais meu coração

O que posso fazer com meus penares
É apenas seguir com meu amor
Na espera de algum dia tu chegares.

Théo Drummond

terça-feira, 1 de novembro de 2011

GRATIDÃO

Quando a noite começa a aparecer
e o céu azul vai se tornando escuro.
olho o sol que começa a se esconder
atrás do mar, que se assemelha a um muro.

Logo a primeita estrela que procuro
mostra-se a mim, e eu passo a perceber
que o silêncio noturno é limpo e puro
e me ajuda a sentir que é bom viver.

E assim respiro fundo, e respirando,
diante da paz que então me envolve eu vi
tanta estrela no céu, sempre brilhando.

E foi,mais uma vez, que então senti,
a beleza da vida se mostrando
- e agradeço ao meu Deus estar aqui.

Théo Drummond

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

SONO

 
É assm, quando dormir não se consegue
que todos os fantasmas aparecem,
e enquanto a  noite tão comprida segue
eles  fingem viver, nunca adormecem
.
Todos sentiram isso e não se negue
que as noites mal dormidas se parecem
com castigo da insônia que persegue
qualquer de nós, mesmo os que não merecem.

A noite passada em claro é diferente:
dura muito mais tempo do que dura
e até parece que entorpece a gente.

Quando a manhã começa a aparecer,
se tentarmos dormir é uma loucura:
o sono será igual como morrer.

Théo Drummond

domingo, 28 de agosto de 2011

LINGUAGEM


Enquanto as águias crocitam
As andorinhas chilreiam,
E se ariranhas regougam
E os gafanhotos chichiam;
Enquanto as araras chalram,,
Gaviões, nos ares, guincham.
Emas somente suspiram,
E os camelos só blateram.
Búfalos, no campo, bramam.
Nos áres cucus cuculam,
Enquanto elefantes barrem
E só cordeiros berregam.
Gatos miam, e os cães ladram
Doninhas chiam, cisne arensa
Cucus cuculam, doninhas chiam,
Juritis turturinam, as vacas mugem,
Patos grassitam, pavões pupilam,
Pássaros gorgeiam, pacas assobiam
Pernilongos zululam, e onças esturram;
papagaios palreiam, e cegonhas gloteram


E nós, humanos, quantas línguas falamos?

Théo Drummond

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

NOSSO


Olhar, de olhos abertos, é captar o que existe
nas mais variadas formas, ao nosso redor.
É ver o que está em cada lugar,
como parte da natureza - e mais nada.
Mas olhar de olhos fechados, é ver muito mais,
porque é a nossa imaginação que cria o que se vê,
e o que se vê, neste caso,
é mais real e completo porque é somente nosso. 
Théo Drummond

segunda-feira, 18 de julho de 2011

NÃO SABER

 
 
 
Cada vez que me vejo a imaginar
O caminho que tenho  pela frente
E que não sei qual é, passo a ficar
De certa forma um tanto diferente.
 
É que não sei se o fato de esperar
O que vai vir domina a nossa mente,
E cada qual apenas passa a olhar
A vida de uma forma complacente.
 
Não existe importância, no viver, 
a não ser esperar acpntecer
o que tiver que vir, e que há  de vir
 
A vida é isso, é como uma viagem,
Não precisa comprar sua passagem
Já que não sabe do momento de ir.

Théo Drummond

sábado, 25 de junho de 2011

SONETO 4


O amor é como o tempo e as estações
determinam seu grau de qualidade.
é quando ainda é verão que os corações
amam com muito mais intensidade.

Na primavera, as flores em botões
fazem que o amor tenha essa intimidade
traduzida em fortíssimas paixões
vividas entre o pranto e a ansiedade.

No outono, o amor é como um fim de tarde
que chega sem temor e sem alarde
satisfeito e feliz co’a própria sorte.

Mas no inverno, por fim, o amor é tido
com um grande final que foi vivido
para nos aquecer na hora da morte.

Théo Drummond
(No livro Tempo de Poesia de 1990)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

ENGANO

É triste perceber
que as pessoas
que te cercam
e te amam
se surpreendem
com os sinais,
cada vez mais aparentes,
de que sua vida
está próxima do fim.

Não sei por que razão,
os que nos cercam
e nos amam,
parecem acreditar
que somos eternos. 

Théo Drummond

segunda-feira, 30 de maio de 2011

FIM DA ESTRADA


Às vezes volta à memória
o tempo em que fui menino,
quando não havia história
escrita no meu destino.
Era criança, somente,
de olhos abertos, sem ver,
que o mal é coisa que a gente
aprende quando crescer.
Assim vim eu pela vida,
e na minha juventude
tentei subir a subida
que era íngreme – e não pude.
Hoje sinto o fim da estrada:
que história posso escrever?
A da criança esquecida,
do jovem que não fez nada,
do velho que quis viver,
mas percebeu, finalmente,
que para o que serve a vida
todo mundo, toda gente,
só aprende quando morrer?...

Théo Drummond
(livro redondilhas, pág. 40)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

CRUCIFICAÇÃO

Quero pensar que és tudo o que não és

Para enganar-me como sempre o fiz.

Quero ser chão nos passos dos teus pés

Fingir que sou feliz sendo infeliz.

 

Quero sofrer revés após revés

Sempre  aceitando aquilo que não quis.

Ouvir de ti palavras tão cruéis

Que apenas não me matem por um triz.

 

Quero que faças do meu corpo escravo

Criando a escuridão que me conduz

Ao caminho do medo em que me agravo

 

Faças o que na vida te seduz:

prenda meus pés e mãos com cada cravo     

E depois me suspenda numa cruz.

Théo Drummond

quarta-feira, 18 de maio de 2011

PERCURSO

A  morte não existe, é apenas a mudança
De um lugar para outro, onde tudo prossegue
De uma forma melhor pois acaba a esperança
Do que sempre se quer e nunca se consegue.
 
Assim fique tranqüilo e ao medo não se entregue
Já que ao final de tudo a gente sempre alcança
A paz tão desejada, e cada qual persegue,
E que afinal nos chega quando o tempo avança..
 
E cada passo dado mais nos aproxima
De tudo o que de bom há de existir lá em cima 
E onde cada um de nós há de chegar ao cúmulo,
 
Ao sentir que morrer é o fim de uma passagem
Que afinal percorremos como numa viagem,
Começada num útero, acabada num túmulo.

Théo Drummond

quarta-feira, 27 de abril de 2011

RECADOS

Ás vezes olho a o horizonte
e tenho vontade de ir
escalar aquele monte
que me convida a subir.

Aguardo que o sol desponte
e o dia comece a vir.
Subo (e espero) me defronte,
o que anseio ver e ouvir.

Caminho por várias trilhas,
chego ao topo, e descansando,
vejo e escuto maravilhas.

Vales, rios, todos meus,
e até o vento ventando
me traz recados de Deus.

Théo Drummond
(livro Redondilhas, pág. 108)